O Índice de Massa Corporal pode não ser tão confiável quanto pensamos
O Índice de Massa Corporal (IMC), uma das métricas de saúde mais difundidas globalmente, tem sido alvo de crescentes questionamentos. Um novo estudo, cujos resultados serão apresentados no Congresso Europeu sobre Obesidade (ECO 2026), em Istambul, e publicados na revista Nutrients, sugere que essa ferramenta pode estar classificando incorretamente a condição de peso de mais de um terço dos adultos.
A pesquisa, que utilizou a absorciometria de raios-X de dupla energia (DXA) como método de referência para a medição de gordura corporal, revelou discrepâncias significativas entre as classificações do IMC e os níveis reais de adiposidade. Este achado levanta sérias preocupações sobre a eficácia do Índice de Massa Corporal como um indicador preciso de saúde e bem-estar.
Por que o Índice de Massa Corporal tem sido questionado?
Há anos, o Índice de Massa Corporal enfrenta críticas por suas limitações inerentes. A fórmula, que calcula a relação entre peso e altura, não diferencia massa muscular de massa gorda, nem considera a distribuição da gordura no corpo. Isso significa que um atleta com alta massa muscular pode ser classificado como “sobrepeso” ou “obeso” pelo IMC, enquanto uma pessoa com pouca massa muscular e alta porcentagem de gordura corporal pode cair na categoria de “peso normal”, mesmo apresentando riscos à saúde.
Professor Marwan El Ghoch, do Departamento de Ciências Biomédicas, Metabólicas e Neurais da Universidade de Modena e Reggio Emilia, explica que essa falha fundamental impede que o Índice de Massa Corporal reflita com precisão a adiposidade de um indivíduo. Apesar dessas preocupações, a métrica continua sendo amplamente empregada tanto em ambientes clínicos, por médicos generalistas, quanto em contextos não clínicos, como em políticas de saúde e seguros.
O DXA como padrão-ouro na avaliação da composição corporal
Para investigar a confiabilidade do Índice de Massa Corporal, pesquisadores das universidades de Verona e Beirute recorreram ao DXA. Este método é considerado o padrão-ouro para a medição de gordura corporal, pois fornece uma análise detalhada da composição corporal, distinguindo entre massa óssea, massa magra e massa gorda. A avaliação pelo DXA classifica o estado de peso com base na idade e no percentual de gordura corporal, oferecendo uma estimativa muito mais direta e precisa da adiposidade.
O estudo envolveu 1351 adultos, com idades entre 18 e 98 anos, sendo 60% participantes do sexo feminino. Todos os indivíduos eram de etnia caucasiana branca, o que reflete as diferenças conhecidas no IMC entre diversos grupos étnicos. Essa escolha metodológica permitiu uma reavaliação minuciosa das classificações do Índice de Massa Corporal, comparando-as com os dados objetivos fornecidos pelo DXA.
Descobertas surpreendentes: a misclassificação é comum
A comparação entre as classificações do Índice de Massa Corporal e os resultados do DXA revelou diferenças notáveis. Entre os indivíduos classificados como obesos pelo IMC, mais de um terço (34%) foram, na verdade, enquadrados na categoria de sobrepeso com base nas medições do DXA. A misclassificação foi ainda mais acentuada entre aqueles rotulados como sobrepeso pelo IMC, onde mais da metade (53%) estava na categoria errada.
Desses indivíduos com sobrepeso pelo IMC, aproximadamente três quartos estavam dentro da faixa de peso normal segundo o DXA, enquanto o restante atendia aos critérios para obesidade. O Índice de Massa Corporal e o DXA mostraram melhor concordância entre indivíduos na faixa de peso normal (IMC entre 18,5 e 25), com ambos os métodos alinhados em 78% dos casos. No entanto, mesmo nesse grupo, 22% foram atribuídos a uma categoria diferente pelo DXA, incluindo peso abaixo do normal, sobrepeso e obesidade. A maior discrepância ocorreu no grupo de baixo peso, onde dois terços (68,4%) dos classificados como abaixo do peso pelo IMC foram reatribuídos à categoria de peso normal pelo DXA. No geral, o DXA indicou uma prevalência combinada de sobrepeso e obesidade de cerca de 37%, em comparação com 41% usando o IMC.
Implicações para a saúde pública e diretrizes futuras
O Professor El Ghoch, líder do estudo, enfatiza que a principal descoberta ressalta o fato de que uma grande proporção de indivíduos – mais de um terço dos adultos na população italiana em geral – é classificada incorretamente quando se utiliza a classificação tradicional do Índice de Massa Corporal da OMS. Isso resulta numa superestimação da prevalência de baixo peso, sobrepeso e obesidade em comparação com a classificação baseada no percentual de gordura corporal medido pela técnica padrão-ouro do DXA.
A coautora, Professora Chiara Milanese, da Universidade de Verona, acrescenta que, embora ambos os sistemas identifiquem uma prevalência geral semelhante de sobrepeso e obesidade, em muitos casos, estamos falando de pessoas diferentes. Isso se deve à falta de concordância entre os sistemas de classificação do Índice de Massa Corporal da OMS e o percentual de gordura corporal derivado do DXA na determinação do estado de peso em diversas faixas etárias e de gênero na população geral. As descobertas sugerem que as diretrizes de saúde pública na Itália, e possivelmente em outras populações caucasianas brancas, deveriam ser atualizadas para incluir ferramentas adicionais ao lado do IMC.
Rumo a uma avaliação de peso mais precisa
Os pesquisadores concluem que as diretrizes de saúde pública precisam evoluir. Além do Índice de Massa Corporal, é fundamental incorporar ferramentas que ofereçam uma avaliação mais direta da composição corporal. Isso pode incluir a medição de gordura por DXA ou alternativas mais simples e acessíveis, como as medições de pregas cutâneas ou indicadores de circunferência corporal, como a relação cintura-altura.
Embora o estudo tenha se concentrado em uma população caucasiana branca, os autores sugerem que padrões de misclassificação semelhantes são prováveis em outras populações europeias e mundiais. No entanto, é crucial que mais pesquisas sejam realizadas para determinar se esses resultados se aplicam a diferentes grupos étnicos e regiões, garantindo que as métricas de saúde sejam verdadeiramente inclusivas e precisas para todos.